Clube de Cinema no Dia das Mães

Intrigante o filme "Pais e Filhos", exibido pelo Clube de Cinema de Marília (CCM) na noite de domingo (14), em homenagem ao Dia das Mães. E igualmente belo, mas de uma beleza tensa e incômoda, difícil de ser reconhecida no cotidiano agora alterado de duas famílias do Japão moderno, e por isso mesmo muito parecido com o resto do mundo, incluindo o Brasil.

Intrigante o filme "Pais e Filhos", exibido pelo Clube de Cinema de Marília (CCM) na noite de domingo (14), em homenagem ao Dia das Mães. E igualmente belo, mas de uma beleza tensa e incômoda, difícil de ser reconhecida no cotidiano agora alterado de duas famílias do Japão moderno, e por isso mesmo muito parecido com o resto do mundo, incluindo o Brasil.

Do diretor Hirokazu Koreeda, o filme de 2013 narra a história de dois meninos trocados na maternidade, fato que vem a ser conhecido somente após seis anos, quando muito tempo - e muita vida - já passou por debaixo da ponte. A partir da comunicação do hospital, pais e filhos tentam destrocar os seus papeis, espaços e mentes, numa situação de total perplexidade, tanto do lado infantil como do adulto, incluindo nós – os espectadores.

E todos então se dão conta do quanto é frágil a vida humana: qual uma tragédia grega, fica-se sabendo que foi por capricho de uma enfermeira que as crianças foram trocadas, vendo-se agora os pais na angustiante contingência de se afastarem dos filhos “adotivos”, e elas - as crianças - de aceitarem, perplexos, os novos genitores.

É nessa hora - e durante todo o filme - que se revelam o gênio e a sensibilidade do diretor japonês: é assombrosa e mesmo maravilhosa a maneira natural e ao mesmo tempo angustiante com que a câmera flagra as feições e o comportamento das crianças e dos adultos. Pois diante disso, todos se perguntam: como aceitar o novo filho - com jeito muito diferente do primeiro - o falso? De que maneira viver com os novos pais e a nova família, num lar diverso do original?

Tal situação de estranheza é mais agudamente experimentada pelo casal mais abastado, cujo chefe - quase que exclusivamente dedicado ao trabalho - expõe o lado frio da vida, bem diferente do outro pai, mais simples em sua profissão e em seus modos, que encara a nova situação com naturalidade e mesmo afetuosidade, não se abstendo de considerar quanto de dinheiro pode ganhar com uma futura indenização por parte do hospital.

É neste imbróglio que se situam os dois meninos, fisicamente bem semelhantes aos “novos” pais, mas espiritualmente bastante diferentes - o que nos incomoda - e muito! - e também a eles! Aqui se reproduz a conhecida frase - e que aqui cabe cruelmente - que diz que o homem é o produto do seu meio, e também de sua hereditariedade, como nos confirma o filme.

É a partir desse raciocínio que, de maneira vil, um dos pais - o mais abastado - conclui, logo no começo do filme, que “agora está tudo explicado”, imputando à carga genética tudo o que de ruim o filho adotivo tinha. Por sua vez, é no filho biológico que ele constata, já no fim da história, várias atitudes nada convencionais, algumas delas praticadas por ele mesmo - pai - quando era criança, o que serve para sua redenção enquanto se identifica com o filho não só em seus acertos, como também em seus erros.

Nesse ponto é que se dá o sublime dentro do filme: os pais percebem que não é pela simples (des)troca e separação das crianças que as coisas vão se resolver. Em vez disso, é a união delas e das duas famílias o caminho a ser tomado; no lugar da recusa às diferenças, é a aceitação das particularidades de cada um o mais importante na construção amorosa dos laços humanos

E para todos sobra uma reflexão: a de que não vale a pena (e pena mesmo!) procurar por um culpado - a genética ou o meio - pelas nossas eventuais incapacidades, mesmo porque somos em grande parte o que herdamos, por mais educados que tenhamos sido ao longo da vida. O mais importante é em primeiro lugar descobri-las, o que não é tarefa fácil. A seguir, será possível aceitá-las e talvez corrigi-las, se esse for o nosso desejo.

Esse filme foi sem dúvida uma oportuna homenagem às mães em seu dia, e também aos pais, mas principalmente a elas que, como mulheres, são muito mais amorosas e, diferentemente dos homens, dotadas de um sexto sentido que - esse sim - nem a genética nem o meio podem explicar - ainda!

 

(Altino Luiz Silva Therezo - médico e presidente do Clube de Cinema de Marília)