editorial

                         E lá se vai a Ford...

 

Mas parece que a porteira se abriu para que outras montadoras também deixem o País muito em breve. O baque foi enorme com o anúncio da partida da pioneira com mais de cem anos de Brasil. Foi a segunda derrocada da empresa, que já teve um projeto mirabolante na década de 1020 quando seu fundador Henry Ford esteve por aqui e tentou criar uma comunidade de trabalhadores na floresta amazônica para produzir a borracha necessária para seus carros. Chegou a fundar uma cidade, mas a aventura da Fordlândia não foi bem sucedida


“Não estamos indo para a América do Sul para ganhar dinheiro, mas para ajudar a desenvolver essa terra maravilhosa e fértil”, afirmou Ford na época. A construção, do zero, de uma cidade industrial rodeada de plantações de seringueiras destinadas a abastecer suas fábricas de automóveis em Michigan. Um projeto ambicioso e bastante complicado, que exigiu um investimento inicial de US$ 2 milhões. E tudo não passou de utopia, perda de tempo e muito dinheiro. Fordlândia foi abandonada.

Agora, cem anos depois mais um abandono, de fábricas de automóveis que empregam mais de cinco mil pessoas em São Paulo e na Bahia.


A montadora que há mais tempo opera no Brasil, a Ford Motor Company, anunciou que não produzirá mais veículos em território nacional. Desativará as fábricas de Taubaté, onde são feitos os motores, e o conjunto de Camaçari, na Bahia, onde são produzidos os últimos dois produtos nacionais da marca, o Ford Ka e o EcoSport. Também vai parar a produção a fábrica da Troller, no Ceará, marca controlada pela Ford.


Os sinais de que mudanças profundas aconteceriam surgiram quando a matriz norte-americana comunicou que só produziria, dali para frente, picapes e SUVs. Na sequência a Ford parou a fabricação de sua linha de caminhões no Brasil e a histórica fábrica de São Bernardo do Campo, de onde, nos últimos anos, só saía o Ford Fiesta. A marca diz que manterá suas operações no Brasil, possivelmente vendendo apenas importados (Ranger, Bronco e Territory), além da van Transit que será feita no Uruguai. É muito pouco para manter uma rede de concessionários já penalizados pela falta de novos produtos. Ou seja, o estrago vai ser bem maior do que as demissões dos cinco mil empregados, já que haverá reflexos inevitáveis na enorme rede de concessionárias Ford por todo o País.


A alta e complexa carga tributária e os custos de logística contribuíram de forma expressiva para a decisão da Ford, que preferiu focar seus investimentos em produção de veículos em outros países - como a China, de onde atualmente importa o SUV Territory. 

O câmbio desfavorável em relação ao real foi outro ingrediente decisivo para bater o martelo em relação ao fechamento das linhas de produção da Ford no País, combinado com outros fatores. Mesmo insumos estratégicos comprados em território nacional, como o aço, são cotados em dólar.


A pandemia do coronavírus, que trouxe grande impacto para a economia mundial, inclusive a brasileira, foi a pá de cal que faltava para bater o martelo e fechar as linhas de produção brasileiras. Combinada com os fatores citados acima, levou à decisão extrema. "Além de reduzir custos em todos os aspectos do negócio (...), introduzimos serviços inovadores para nossos clientes. Esses esforços melhoraram os resultados nos últimos quatro trimestres, entretanto a continuidade do ambiente econômico desfavorável e a pressão adicional causada pela pandemia deixaram claro que era necessário muito mais para criar um futuro sustentável e lucrativo", disse Lyle Watters, presidente da Ford América Latina.


Não é de hoje que as montadoras vêm enfrentando dificuldades, mesmo porque acabaram as benesses como fechamento das “torneiras oficiais” fabulosas dos tempos do governo petista. De lá para cá a situação apertou e todas passaram a “enxugar” os custos, principalmente com demissões e fechamento de fábricas. A GM também passa por dificuldades; Peaugeot/Citröen instalada em Porto Real, no Rio de Janeiro, também está em vias de fechamento.


O fim da produção local de veículos da Ford no Brasil não é um caso isolado e faz parte de todo um processo de reestruturação mundial da empresa para reduzir custos e aumentar a lucratividade - algo que outras gigantes do setor automotivo têm buscado por meio de fusões, como é o caso de FCA e PSA, que se uniram para fundar a Stellantis. A porteira está aberta!