editorial

Doria e os dividendos políticos da vacina

 

Na semana passada, o governador João Doria divulgou que a Coronavac, feita com o vírus atenuado, teria eficácia de 78% contra casos leves do novo coronavírus e de 100% para quadros graves. Logo após o resultado se tornar público, o Butantã solicitou a autorização de uso emergencial da vacina. Na ocasião, a agência salientou que estimava levar 10 dias para avaliar a solicitação, "descontando eventual tempo que o processo possa ficar pendente de informações, a serem apresentadas pelo laboratório".

Doria está desesperado para ser o “pai da vacina” e dar a largada da vacinação no Brasil, tentando angariar apoio para sua candidatura a presidente da República no ano que vem. Ontem, o governador voltou a cobrar celeridade da Anvisa para aprovar a CoronaVac, que é feita no Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac.

Um dia depois de a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmar que faltam documentos para avaliar o pedido de uso emergencial da Coronavac, João Doria cobrou "senso de urgência" do órgão.


"Ritos da ciência devem ser respeitados, mas devemos lembrar que o Brasil perde cerca de mil vidas por dia para a covid-19", tuitou. "Com a liberação da Anvisa, milhões de vacinas que já estão prontas poderão salvar vidas", escreveu.

A Indonésia autorizou ontem o uso emergencial da vacina CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac. Além da liberação, a Indonésia anunciou que a eficácia da vacina nos testes conduzidos do país foi de 65,3% em resultado preliminar. A fase 3 contou com 1.620 voluntários.


Estranho é que João Doria falou em 78% de eficácia, enquanto que o governo da Indonésia anunciou 65,3%. Isso acaba deixando muitas dúvidas sobre a eficiência da vacina, que não chega aos 100% e pode inclusive provocar a recusa de parte da população em receber o imunizante. Principalmente se vacinas de outros laboratórios que já estão sendo utilizadas em vários países apresentarem melhores resultados, melhor eficácia.


Apesar da pressão feita pelo governador de São Paulo, a Anvisa listou seis conjuntos de informações que estariam faltando no material submetido pelo Butantã. Entre eles, há dados de características de idade, sexo, peso e comorbidades de participantes do estudo clínico, além de resultados por população de intenção-de-tratamento (ITT). Também faltariam a "descrição dos desvios de protocolo ocorridos no estudo com a adequada classificação de impacto e de categoria" e a "listagem de participantes com desvios de protocolo, divididos por centro". O último item solicitado pela Anvisa é de "dados de imunogenicidade do estudo fase 3" da Coronavac, ou seja a capacidade de a substância provocar resposta imune.


João Doria quer, a todo custo, iniciar a vacinação com a CoronaVac no dia 25 de janeiro (aniversário da capital paulista). Mas pelo jeito será difícil ele cumprir a promessa, além de enfrentar a possível rejeição de parte da população exatamente pela falta de informações sobre a eficácia da vacina chinesa e suas reações e sequelas!