O Genocídio do negro brasileiro

Ao longo do século passado, prevaleceu a visão de que os descendentes dos africanos se encontravam, no Brasil, numa condição muito mais favorável do que a vivida pelos negros no sul dos Estados Unidos ou na África do Sul do apartheid.

Ao longo do século passado, prevaleceu a visão de que os descendentes dos africanos se encontravam, no Brasil, numa condição muito mais favorável do que a vivida pelos negros no sul dos Estados Unidos ou na África do Sul do apartheid.

Mais do que estabelecida, essa era uma visão oficial: o Brasil seria uma democracia racial, um lugar em que o grande problema do negro era a pobreza e não o preconceito de cor.

Foi contra essa falácia que Abdias Nascimento se insurgiu ao apresentar, no Segundo Festival de Artes e Culturas Negras, em Lagos (Nigéria, 1977), em plena vigência da ditadura militar, um texto combativo, a começar pelo título, demonstrando que a condição dos negros no Brasil não era realmente como aquela nos EUA ou na África, era pior, vítimas que são de um racismo insidioso, de uma política que conduz a um genocídio, para usar o termo do autor, que, ausente das leis e dos discursos políticos, se revela cotidianamente.

Assim, a reedição de O Genocídio do negro brasileiro: Processo de um racismo mascarado (232 páginas) pela editora Perspectiva não é apenas uma homenagem histórica, mas a constatação de um fato: a despeito do trabalho dos ativistas e da mudança de mentalidade na academia, a situação continua inalterada.

Segundo a ONU, atualmente no Brasil ocorre, a cada 23 minutos, a morte de um jovem negro. Em geral, do sexo masculino; em geral, pela ação, ou omissão, do Estado, da polícia a instituição de escolha para se lidar com qualquer questão social no país. É preciso dizer mais?

O autor - Abdias Nascimento foi um importante ativista da causa negra, poeta, ator, escritor, dramaturgo e crítico brasileiro.

Organizou o Congresso Afro-Campineiro em 1938 e fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN), ainda em atividade, que patrocinou a Convenção Nacional do Negro e organizou o 1º Congresso do Negro Brasileiro.

Exilado pelos militares na década de 1960, participou da criação do PDT e, em 1981, liderou a fundação da Secretaria do Movimento Negro do PDT. Como parlamentar, apresentou projetos de lei de criminalização do racismo e criação de mecanismos de ação compensatória, idealizando uma sociedade brasileira de fato igualitária."