Série "Desalma" discute relação com a morte em cidade parada no tempo

"É um encontro de almas", diz atriz Cássia Kis sobre suspense sobrenatural e personagem bruxa na série que estreiou ontem no Globoplay

"'Desalma' é uma história de relacionamentos muito profundos que chega em um lugar incrível, que é a alma".

É assim que Cássia Kis descreve a série que estrela ao lado de Claudia Abreu e Maria Ribeiro.

O suspense sobrenatural estreiou ontem no Globoplay com dez episódios.

O povoado pacato de Brígida é o cenário de fenômenos que assombram a população por décadas e é marcado por rituais de bruxaria que buscam trazer almas de pessoas que não estão mais por aqui.

Cássia Kis interpreta a feiticeira Haia, que sofre com a morte repentina da filha no final dos anos 80, primeira fase da série. As consequências dessa perda persistem por quase 30 anos, na outra fase em 2018.

"Foi divertido e está sendo divertido fazer esses dois momentos. Eu sou uma mulher de 62 anos com essa cara de 305", brinca a atriz.

 "É uma história de uma família, de uma mulher com seu marido, ela com sua filha... Depois, o desaparecimento dessa filha e as consequências disso nestes 30 anos esse vácuo, esse buraco que essa mulher foi parar", explica.

Floresta e influência ucraniana

"Desalma" se apoia na cultura ucraniana para reproduzir a mitologia, as lendas e as festas, como Ivana Kupalla, uma das principais comemorações do calendário eslavo.

"Não para Haia só, mas para a história toda é quase uma ameaça, assusta.

 É uma festa de tradição ucraniana linda, uma festa de amor, de relações amorosas entre meninas e rapazes e acontece uma tragédia dentro dessa festa", explica Cássia Kis

Outro cenário importante para a série é a floresta. Na série, ela é um local de encontro, celebração e magia. "A floresta de um modo geral esconde histórias. A gente entra em uma floresta e as coisas começam sempre a acontecer os barulhos, as coisas que a gente não conhece", afirma Cássia Kis.

"Dentro da floresta, nesse caso, tem gente, tem alma, tem vozes. Ela pulsa porque é floresta, porque está viva, mas pulsa mais e, de outro jeito, porque tem alma", continua a atriz que a filha de Haia, personagem de Cássia, morreu em uma celebração da Ivana Kupalla.

A provocação sobre a relação humana com a morte é constante na série e aparece também nas histórias de Ignes (Claudia Abreu) e Giovana (Maria Ribeiro).

"Desalma' é um drama sobrenatural que fala da nossa relação com a morte e a dificuldade de aceitar as perdas. A partir dessa não aceitação que entra a atmosfera sobrenatural, com a personagem Haia (Cássia Kis), que faz parte de uma linhagem de bruxas ucranianas", explica o diretor artístico Carlos Manga Jr.

"Direção sugerida"

Para Manga Jr., representar o universo sobrenatural está mais relacionado ao que não aparece, o que não é dito do que em efeitos especiais, como voos ou paredes atravessadas pelas personagens.

"Nós escolhemos a direção sugerida, aquela que não mostra. É uma série que surpreende porque não trabalha nas mensagens diretas e, sim, no subliminar", diz Manga Jr. "Se eu pudesse usar três palavras para definir a atmosfera de ‘Desalma’ seriam densidade, estranheza e rigor. É usar a tecnologia -os efeitos à nossa disposição -para que isso seja invisível".

Escrita por Ana Paula Maia, "Desalma" foi gravada em locações no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Rio de Janeiro, e tem 75% do elenco de jovens atores. Antes da estreia no streaming, a série foi selecionada para exibição no festival de Berlim em fevereiro.