Coronavírus afeta o cérebro e pode causar alterações mesmo em pacientes leves

Vírus invade células cerebrais e altera proteínas associadas à doenças como Parkinson e Alzheimer

Uma pesquisa realizada por um grupo de mais de 70 pesquisadores brasileiros mostra como o novo coronavírus age no cérebro humano, provocando a morte de neurônios não apenas nos pacientes graves ou moderados, mas também nos pacientes leves que ainda não precisaram de tratamento hospitalar na fase aguda da Covid-19.

O estudo, coordenado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), contou com a participação da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio).

O artigo com os resultados foi publicado em versão pré-print na plataforma medRxiv e segue em avaliação por uma revista científica internacional.

Os resultados revelam que o vírus promove alterações significativas na estrutura do córtex, a região do cérebro mais rica em neurônios e responsável por funções complexas como memória, atenção, consciência e linguagem.

Mecanismos de ação do coronavírus

Segundo os pesquisadores, foram feitas duas grandes descobertas em relação ao mecanismo de ação do vírus.

 Quando o SARS-CoV-2 entra no cérebro ele ataca uma espécie de célula de apoio responsável pelos processos metabólicos, dificultando a produção de energia e a nutrição dos neurônios e, consequentemente, podendo levar à morte do tecido cerebral.

Alguns estudos já haviam demonstrado a presença do novo coronavírus no cérebro, mas desta vez os experimentos comprovaram que o vírus de fato infecta e se replica nos astrócitos, que são as células mais abundantes do sistema nervoso central e têm formato de estrela.

A presença do vírus foi confirmada nas 26 amostras estudadas, coletadas por meio de autópsia minimamente invasiva realizada em pacientes que morreram por causa da Covid-19.

“Nós encontramos muitos pacientes que, mesmo já tendo se curado da Covid-19 há cerca de 2 meses, continuavam apresentando sintomas neurológicos, como fortes dores de cabeça, sonolência excessiva, alteração da memória, além de perda de olfato e paladar. Em alguns casos raros, até convulsões, e esses pacientes nunca tinham sentido isso antes" - Clarissa Lin Yasuda, pesquisadora da Unicamp

Clarissa afirmou ainda que há suspeita de que o vírus possa ativar doenças genéticas como esquizofrenia, Parkinson e Alzheimer.

 "O que nós ainda não sabemos é a gravidade destas lesões, se são passageiras ou se podem ser irreversíveis, por isso vamos acompanhar esses pacientes pelos próximos 3 anos para saber se o vírus desencadeia doenças degenerativas em quem tem algum potencial genético”, explica a pesquisadora.

Até agora os cientistas não tinham certeza se o vírus estava mesmo dentro das células do cérebro ou se os sintomas eram causados por outros problemas trazidos pela doença, mas os estudos mostraram o vírus agindo em células do cérebro.

 Embora a maior parte dos pacientes com Covid-19 apresente sintomas pulmonares, como pneumonia e falta de ar, cerca de 30% dos infectados acabam manifestando sintomas neurológicos ou psiquiátricos.