editorial

 

                  Por que tanto corporativismo?

 

O ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli deixou a presidência da corte no último dia 10 de setembro, quando Luiz Fux assumiu o cargo em que ficará por dois anos. Mas antes de passar o cargo, Dias Toffoli deu uma última canetada enquanto se sentava no “trono” e determinou o arquivamento de todos os inquéritos abertos no Supremo Tribunal Federal que tiveram como base a delação premiada do ex-governador do Rio Sérgio Cabral, preso desde 2016.


A decisão atinge 12 novas frentes de investigação autorizadas pelo ministro Edson Fachin, que homologou a colaboração premiada assinada pelo ex-governador do Rio de Janeiro com a Polícia Federal. Desses 12 inquéritos, três já tinham sido arquivados em julho.


Essas investigações envolviam, por exemplo, ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que teriam sido implicados pelo ex-governador em seus depoimentos. Toffoli atendeu a um pedido da Procuradoria-Geral da República, que não viu elementos para justificar as apurações.


Não se descarta uma “jogada de mestre” do procurador-geral Augusto Aras “usando” a caneta de Toffoli no apagar das luzes. Aras, apesar de ser o chefe do Ministério Público Federal, tem agido freneticamente contra a operação Lava Jato. O que é muito estranho, porque o chefe deveria apoiar o excelente trabalho de investigação que vem sendo feito pela Lava Jato há mais de quatro desmantelando quadrilhas de bandidos corruptos e recuperando alta quantia de dinheiro absorvido dos cofres públicos.


Ora, se o ex-governador Sérgio Cabral está atolado até o pescoço na corrupção e já tem mais de doze condenações que somam 267 anos de prisão, certamente ele tem muito a declarar na proposta de delação premiada, envolvendo figurões da política e da justiça.


Mas aí entra o velho e pernicioso corporativismo. Descaradamente, o procurador-geral Augusto Aras se valeu das últimas horas do ministro Dias Toffoli na presidência do STF e apelou para que ele arquivasse os 12 inquéritos envolvendo a delação de Sérgio Cabral, atropelando inclusive o ministro relator da Lava Jato Edson Fachin.


O procurador-geral da República, Augusto Aras, recorreu da decisão de Fachin que validou a delação. O ministro, no entanto, manteve as investigações e enviou para Toffoli redistribuir os casos para novos relatores. O que não aconteceu! O então presidente do STF pediu manifestação do PGR, que defendeu o arquivamento. E pôs fim nos inquérito, beneficiando corruptos denunciados por Sérgio Cabral. Mas por quê?


A propósito, a revista Crusoé traz na sua última edição uma reportagem explosiva, com depoimentos em vídeo de Marcelo Odebrecht à PGR e cópias de emails trocados entre ele e executivos da Odebrecht encarregados de cooptar políticos e personagens do governo. Os depoimentos e as mensagens giram em torno de Dias Toffoli, quando o ministro do STF ainda era Advogado-Geral da União.


O relato de Rodrigo Rangel e Luiz Vassalo é uma sequência da matéria “O amigo do amigo de meu pai”, censurada em abril de 2019, no âmbito do inquérito do fim do mundo. Eles tiveram acesso exclusivo à integra da apuração da Procuradoria-Geral da República sobre a relação de Toffoli não apenas com a Odebrecht, mas com a OAS.


A impressão que fica é de que o corporativismo atinge todo o alto escalão da política (Congresso Nacional) e da justiça. E não faltam vistas grossas e ouvidos de mercador! Só para lembrar: Augusto Aras foi escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para a PGR, fora da lista tríplice apresentada pelo Ministério Público Federal. Então... tá explicado! Pobre Brasil!