editorial

Tiro no pé e risco para Bolsonaro

 

O ministro Paulo Guedes, que já vem sendo criticado no Congresso Nacional e em parte da sociedade por planos mirabolantes para tentar diminuir o déficit público, pisou na bola mais uma vez. Ele já tinha sugerido recentemente o fim do abono salarial para gerar recursos ao novo programa Renda Brasil, mas o presidente Jair Bolsonaro disse que não iria tirar dos pobres para dar aos paupérrimos.


Na mesma tecla, Paulo Guedes agora queria mexer em verdadeiro vespeiro que poderia sobrar picadas para todo o governo, atingindo em cheio o presidente Jair Bolsonaro, que pode ter colocada em xeque a sua tão sonhada reeleição. Equipe do Ministério da Economia disse que estudava suspender por dois anos reajustes de benefícios previdenciários, como aposentadorias, pensões e auxílios, de modo a conseguir recursos para o programa Renda Brasil, que Bolsonaro quer pôr no lugar do Bolsa Família.


O ministro Paulo Guedes ainda não tinha comentado publicamente a proposta, que estava sendo desenhada pelos auxiliares. Na segunda-feira, porém, voltou a destacar o peso que despesas obrigatórias como as da Previdência têm no Orçamento e defendeu a desindexação, a desvinculação e a desobrigação de receitas. Segundo ele, essa é a forma de a classe política reassumir a gestão do dinheiro público e conseguir manter as despesas essenciais dentro do teto de gastos. “A indexação não protege ninguém. Só nos jogou no inferno mais rápido na época da hiperinflação”, criticou Guedes, em live com a Confederação Nacional dos Municípios.

Mas é evidente que uma proposta dessa envergadura que mexe com milhões de pessoas entre aposentados, pensionistas e os que recebem auxílios, seria um tiro no pé. Não há dúvida de que parlamentares já começam a se mobilizar contra a proposta, porque não será uma derrota política apenas para o presidente Jair Bolsonaro, de olho nas eleições de 2.022. Será também um problema sério na campanha dos deputados federais e senadores que buscarão a reeleição e vão sofrer críticas do eleitorado, com enorme peso entre os aposentados e pensionistas.


Ora, Paulo Guedes está se enveredando pelo caminho cada vez mais sinuoso e errado, porque quer sempre cobrir um santo descobrindo o outro. O caminho para tentar diminuir o déficit público é tirar de quem ganha muito, principalmente a taxação de grandes fortunas. Ou seja, está na hora de vestir a roupa de Robin Hood e tirar dos ricos para dar aos pobres. E não o contrário!

A verdade é que o presidente Jair Bolsonaro fica de longe esperando a reação da sociedade a essas mirabolantes propostas do ministro da Economia Paulo Guedes. Mas até agora nada colou e tem sobrado críticas para o governo, inclusive já tendo cogitado até mesmo a demissão do ministro Guedes. Fica muito estranho nessa hora em que o Congresso pode derrubar vetos do presidente (conforme pedido dele mesmo) para beneficiar e perdoar dívidas milionárias de igrejas e templos evangélicos, querer mexer no bolso dos aposentados!


O congelamento pretendido pelo ministro poderia liberar R$ 58,5 bilhões do Orçamento, mais ou menos o valor necessário para bancar um benefício mensal de R$ 300 para os beneficiários do Renda Brasil, como deseja Bolsonaro. E ainda atacaria a principal fonte de despesa do governo federal: a Previdência Social, que, apesar da reforma, deve consumir R$ 704,4 bilhões em 2021, quase a metade das despesas previstas no Projeto de Lei Orçamentária Anual.


Porém, também atingiria um público sensível para os planos de reeleição de Bolsonaro: os aposentados, os pensionistas e os que vivem de benefícios como o auxílio-doença. Segundo os dados do INSS, aproximadamente 35 milhões de brasileiros recebem algum benefício previdenciário e cerca de 23 milhões ganham o equivalente ao salário mínimo. Ou seja, um benefício que hoje é de R$ 1.045 e continuaria nesse valor até o fim de 2022, pois passaria dois anos sem receber nem a correção anual da inflação, que é garantida ao mínimo.  Só que a reação da sociedade e da oposição massacraria o presidente, levando a reeleição de Bolsonaro vai para vinagre! Bolsonaro reagiu rapidinho ontem e preferiu mandar o projeto do Renda Brasil para a gaveta.