"Coronavírus não é um inimigo, é um tropeço da natureza", diz autor espanhol

Doutor em genética e biologia celular, Miguel Pita, autor de

 

"O coronavírus não é um inimigo", diz o doutor em genética e biologia celular Miguel Pita, que também é professor pesquisador de genética da Universidade Autônoma de Madri. "É uma casualidade, um tropeço dos muitos que acontecem na natureza", diz o cientista espanhol.

De fato, foi graças a um vírus e um desses tropeços que os próprios mamíferos surgiram. Mas é claro que em tempos de uma pandemia que devastou economias, sistemas de saúde e famílias inteiras, é difícil pensar com esse desapego.

A boa notícia é que "os vírus tendem a ser mais agressivos no começo e menos no final", não porque sejam bons ou inteligentes, mas por uma pura lógica de sobrevivência.

Em seu mais recente livro, "Um dia na vida de um vírus", Pita usa dois vírus fictícios para explicar o que são, como operam e, sobretudo, como eles convivem com os humanos.

Veja a seguir, dois trechos da entrevista concedia por Miguel Pita à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) no festival literário Hay em Querétero, no México:

BBC - Existe um debate na comunidade científica sobre se os vírus são seres vivos ou não. Por que é tão difícil defini-los?

Pita - O difícil é definir o que é um ser vivo, porque o que são vírus já se sabe muito bem: eles são material genético. Funcionam com DNA ou RNA, como todos os demais seres vivos, e basicamente sua essência é se reproduzir, que, de novo, é uma das características principais de um ser vivo.

Mas eles não fazem isso de forma independente e precisam de um hóspede, que pode ser uma bactéria, uma planta, um humano... São parasitas químicos, que necessitam algum de nós que somos claramente seres vivos para entrar em nossas células e poder levar adiante a sua reprodução.

Cada uma das nossas ridículas células, essas que caem aos milhares de seu corpo toda vez que você coça seu braço, tem dentro delas uma maquinaria de enorme complexidade. Mas um vírus não. É como se em um simples fragmento de DNA ou RNA estivesse escrito: "Entre nesta célula maravilhosa e aproveite-se dela".

Então o que é que os vírus não são? Eles não são seres celulares e não possuem outra série de características típicas de seres vivos, como a presença de um metabolismo, do tipo que seja.

As bactérias, os fungos, as plantas e os animais todos vêm de um mesmo ser que surgiu há quatro bilhões de anos. Ou seja, nós temos uma relação familiar com as bactérias, por mais longínqua que pareça, que não é a mesma que temos com os vírus.

BBC - O vírus não tem um cérebro que permita tomar decisões como nos infectar ou nos matar. Então o que o senhor pensa quando escuta o termo "inimigo"?

Pita - Obviamente como cidadão eu entendo porque é algo que colocou de cabeça para baixo o mundo no qual vivemos. Então não se pode deixar de encará-los, de forma inconsciente até, como inimigo.

Mas é claro, como biólogo, percebemos que o que desencadeia esta situação é pura química. Ou seja, uma molécula que anda solta encontrou uma forma de entrar nas nossas células e desencadear uma reação.

Simplesmente se produziu um milagre químico ou uma coincidência, se olharmos do ponto de vista dos nossos interesses pessoais. Então não é um inimigo, é uma casualidade, um tropeço dos muitos que acontecem na natureza. Outros tropeços maravilhosos levaram a que existamos.

Se você enxerga assim, não pode encará-los como um inimigo. Mas é claro, quantas vezes por dia alguém pensa desta forma? Quantas vezes por dia alguém se reconhece como uma estrutura celular, como reações químicas, como uma soma de coincidências? Não é assim que você se vê. O que você é seu nome, seu sobrenome, sua família, seu trabalho.

Um ponto interessante é que os vírus nem sempre causam problemas. No livro eu conto um exemplo, que é o mais exagerado, de que a existência de uma placenta e, no fundo, a existência de todos nós mamíferos, se deve à interação com um vírus. Então eles não são sempre inimigos. O que acontece é que quando eles são, chamam muito mais atenção.