editorial

                      Advogados no banco dos réus

 

Diz-se que advogados sérios e honestos nunca se envolvem com negócios dos seus clientes bandidos. Mas parece que na prática isso nem sempre é verdade. Prova disso são nomes de grande expressão no cenário advocatício do País que estão enrolados, cada vez mais embrenhados na corrupção. Não por acaso, são advogados de grandes nomes da política e do empresariado brasileiro, recebendo quantias expressivas pelo trabalho de defesa nos tribunais e, principalmente, pela vigorosa interferência no alto escalão da justiça, principalmente no Supremo Tribunal Federal.


O escândalo que envolve nomes fortes da advocacia investigados pela operação Lava Jato no Rio de Janeiro coloca em evidência a corrupção que atinge a classe, vindo à tona manobras escusas dos escritórios e até da presidência da Ordem dos Advogados do Brasil.


O Instituto Nacional de Advocacia (Inad), principal associação de oposição ao presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, pediu ao Conselho Federal da OAB o afastamento imediato dele da presidência, pela suspeita de que teria recebido R$ 120 mil do ex-presidente da Federação do Comércio do Rio de Janeiro, Orlando Diniz por meio de um contrato fictício. Em sua delação na Lava Jato, o ex-presidente da Fecomércio afirmou que Santa Cruz pediu o dinheiro para concorrer à reeleição a presidente da seccional da OAB no Rio de Janeiro.


“Os crimes pelos quais o presidente da OAB está sendo investigado foram praticados contra a própria classe dos Advogados, o que agrava ainda mais a sua conduta e justifica o seu afastamento imediato do cargo”, afirmou o Inad em ofício, endereçado ao vice-presidente do Conselho Federal, Luiz Viana, que pode pautar o pedido de afastamento.


É bom salientar que Felipe Santa Cruz foi filiado por oito anos ao Partido dos Trabalhadores, tendo sido candidato a vereador do Rio de Janeiro e não conseguiu se eleger.


Mas a bomba H da Lava Jato explodiu em cheio em outros nomes famosos da advocacia. O juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal do Rio de Janeiro, aceitou a denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal e tornou réus os advogados Cristiano Zanin Martins, que atua na defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Ana Tereza Basilio, que defende o governador afastado Wilson Witzel (PSC). Os defensores são acusados de montar um esquema criminoso que teria desviado pelo menos R$ 151 milhões do Sistema S. De acordo com o Ministério Público, os escritórios eram contratados pela Fecomércio, de maneira que se evitava a fiscalização do Tribunal de Contas da União e do conselho fiscal do grupo empresarial.


O Sistema S, embora não seja entidade do setor público, recebe recursos pagos por entidades sindicais patronais. Os advogados foram delatados por Orlando Diniz, ex-presidente do Sistema S no Rio, que envolve a Fecomércio, Sesc e Senac. A denúncia aceita pela Justiça diz que apesar de ter caixa menor, a Fecomércio era utilizada para firmar os contratos, para dificultar a fiscalização.


Entre 2012 e 2013, três contratos firmados com a Fecomércio por Roberto Teixeira (ex-advogado e compadre de Lula, sogro de Zanin) e Cristiano Zanin geraram o recebimento de R$ 9,5 milhões pelos advogados, de acordo com as investigações. O esquema criminoso de Orlando Santos Diniz seria ainda integrado por Marcelo Almeida, Roberto Teixeira, Cristiano Zanin, Fernando Hargreaves, Vladimir Spíndola, Ana Tereza Basílio, José Roberto Sampaio, Eduardo Martins, Sérgio Cabral e Adriana Ancelmo (advogada e mulher de Cabral).


Lógico que, no melhor estilo defensor de Lula, o advogado Cristiano Zanin tenta sair pela tangente com a velha lorota de perseguição do juiz Marcelo Bretas acusando-o de ter ligação com o presidente Jair Bolsonaro e disse que a ação “é uma retaliação ao seu trabalho para expor erros da operação Lava-Jato, conduzida pelo magistrado no Rio”. É simplesmente vergonhoso! Na verdade, a Lava Jato deveria investigar ainda mais a fundo e expor todos os tubarões da advocacia que defendem “gente grossa” da corrupção, principalmente políticos, e que recebem fortunas cuja procedência é duvidosa, certamente produto de propina de longos anos de impunidade. Esses advogados ainda mancham o nome da OAB, entidade que congrega grande número de profissionais corretos, honestos e que nunca se misturaram aos negócios escusos de seus clientes bandidos.