Editorial

                     Lágrimas de crocodilo?

 

Pareceu estranho, mas o diretor da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom, chorou pedindo apoio das potências econômicas no combate ao coronavírus, que vem dizimando populações desde o final do ano passado. Com 12 milhões de pessoas contaminadas por covid-19 e 550 mil mortos no planeta até sexta passada, o diretor da OMS fez um apelo emocionado ao mundo. Tedros Adhanom Ghebreyesus advertiu que a pandemia do novo coronavírus segue fora de controle e, em prantos, pediu unidade para a humanidade, dias depois de os Estados Unidos entrarem com pedido formal de saída da OMS. Mais pareceram lágrimas de crocodilo diante da perda astronômica de recursos que eram enviados pelo governo norte-americano para a OMS, já que o país do Tio Sam é que mais destinava dinheiro para a organização de saúde da ONU.


Em tom de grande lástima Tedros Adhanom lamentou: "A grande ameaça que enfrentamos agora não é o vírus em si, mas a ameaça é a falta de liderança e solidariedade em níveis globais e nacionais", disse o diretor da OMS em Genebra, na Suíça. Em um discurso emocionado, cheio de pausas, ele disse: "Esta é uma tragédia que... na verdade... está nos fazendo sentir falta de nossos amigos. Perdendo vidas... E não podemos enfrentar essa pandemia com um mundo dividido". "Por que é tão difícil para os humanos se unirem, para lutar contra o inimigo?"


As Américas são o continente mais afetado, com 6,12 milhões de contágios confirmados e 272 mil mortes oficiais. Isso é metade de tudo que foi registrado no mundo. O Brasil segue sendo o país com o segundo maior número de casos e mortes no mundo, atrás apenas dos EUA. Diante desse cenário, o diretor da OMS disse que a pandemia "é uma prova de solidariedade e liderança global" e voltou a pedir a unidade de todos os países.


Mas agora também seria hora do mea culpa da OMS, principalmente do seu diretor que andou fazendo e falando muitas bobagens com terríveis contradições. Governantes procuraram amparo na “ciência”, usada como um habeas corpus preventivo. Se fizessem besteiras, poderiam alegar que haviam seguido conselheiros inatacáveis. Os erros mais gritantes ficaram por conta de diferentes modelagens matemáticas. Muitos se esqueceram de ler as letras pequenininhas, onde se faz a ressalva de que as projeções virariam realidade se nada fosse feito para conter o vírus. Governos e populações assistiriam inermes à matança. Inclusive não ocorreria a ninguém a ideia de isolar por conta própria. Inquéritos parlamentares e até processos na justiça ainda virão apurar o que foi erro justificado e o que não foi. Mas quem vai investigar os equívocos da Organização Mundial de Saúde?

Como um braço da ONU, ela construiu um histórico de credibilidade, especialmente em campanhas de vacinação e orientações para países sem recursos assolados por doenças transmissíveis. Tudo bancado pelos Estados Unidos, o maior contribuidor – 893 milhões de dólares para 2018 e 2019. Até que Donald Trump cortou a verba. Em segundo lugar está a Fundação Bill e Melinda Gates, com 531 milhões de dólares. A China, segunda maior potência econômica, aspirando a ser a primeira, só aparece em décimo-quinto lugar, com 71 milhões. Para uma organização voltada aos países pobres, pois os ricos não precisam dela, pareceu positiva a escolha de seu atual diretor, um biólogo professoral chamado Tedros Adhanom Ghebreyesus, de nome complicado e de origem mais ainda. Tedros, como é chamado, nasceu no território etíope que depois viraria a independente Eritreia, É cristão, fez doutorado em saúde pública e foi ministro da Saúde da Etiópia. Para entender melhor suas atitudes, ajuda conhecer a enorme influência chinesa na Etiópia. De usinas hidrelétricas a shopping centers, praticamente tudo que está sendo construído num país arrasado pela guerra civil é com dinheiro da China.


Não é possível sustentar se houve má fé ou simplesmente impotência no caso do maior erro da OMS, a demora em qualificar corretamente a doença originada em Wuhan. Durante todo o decisivo mês de janeiro, a OMS cobriu a China de elogios pela transparência “impressionante” e o compartilhamento “imediato” do genoma do novo vírus.


Nos bastidores, integrantes da cúpula da organização internacional sabiam muito bem que a China só “entregou” o genoma, em 11 de janeiro, porque ele havia sido publicado num site especializado em epidemiologia. Dados sobre doentes e casos chegavam duas semanas atrasados e só na última hora. Tedros demorou até 10 de março para declarar que havia uma pandemia, uma epidemia em múltiplos países e continentes, quando a infecção já circulava na Europa e nas Américas.


Três dias depois, os casos de coronavírus na Europa ultrapassaram os declarados pela China. As evidências estavam cada vez mais visíveis, mas uma declaração da OMS oficializaria o perigo e mostraria a honestidade, agora contestada, da OMS. De lá para cá foram dezenas de contradições de Tedros e muita proteção à China, a dona do vírus. Por isso, de nada adiantam agora as lágrimas de crocodilo!