Editorial

Bolsonaro x Mandetta

 

Acostumado a mandar sem ser contrariado, no pior estilo militar, o presidente Jair Bolsonaro vai colecionando desafetos e até inimigos, principalmente agora com a pandemia do coronavírus que atinge o País e se alastra com força total. É preciso ter muita calma nesta hora e, principalmente, bom senso.

Depois de arrumar confusão com os governadores, o presidente resolveu bater de frente com o seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que tem tido uma atuação louvável, impecável nas orientações e determinações no combate à doença.

Acontece que o ministro e toda sua equipe são favoráveis ao isolamento social como forma de conter a epidemia no País e antecipar a curva ao máximo possível, evitando assim tragédias como em países da Europa (Itália e Espanha), além dos Estados Unidos, onde o coronavírus ataca cruelmente e eleva diariamente o número de mortos. Isso porque o presidente de lá, Donald Trump, ignorou a importância do isolamento social e agora está apavorado, mudando de ideia.

Acontece que Jair Bolsonaro, turrão, não quer mudar de ideia e insiste no tal isolamento vertical, que seria apenas para idosos e crianças, com medo do desastre econômico que afetará, sem dúvida, o País.

Só que ao criticar abertamente o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o presidente viu crescer contra ele as críticas vindas de vários setores, inclusive do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal, da Ordem dos Advogados do Brasil, até mesmo de outros ministros do governo e tantas outras associações e organizações não-governamentais. Ou seja, o ministro tem o apoio de autoridades e do povo para continuar o brilhante trabalho no combate ao coronavírus.

Ontem o ministro Henrique Mandetta disse que seu foco é o combate ao coronavírus, ao ser questionado a respeito das novas críticas do presidente Jair Bolsonaro ao seu trabalho. Indagado por jornalistas se ele pretendia se demitir após Bolsonaro ter dito que eles não “andam se bicando” e que Mandetta precisa "ter mais humildade", o ministro respondeu: "Foco na doença, vida que segue. Foco, lavoro, lavoro, lavoro”. Lavoro significa trabalho, em italiano. Pode ter sido uma referência à tragédia na Itália!

Se Bolsonaro diz que “não estão bicando”; ou seja, se está contrariado com a atuação do ministro, então por que não o demite? Muito simples: ele prefere fazer pressão para que Mandetta peça demissão, para não arcar com ônus da exoneração de um ministro que tem apoio maior do que o dele na atual situação em que vive o País. Seria um desgaste político terrível diante do apoio popular que tem Mandetta.

Ministros têm procurado Henrique Mandetta para dizer que vão seguir as suas orientações técnicas na crise - e não as do presidente Bolsonaro, o que tem irritado o chefe do Executivo, que gostaria de uma discussão antecipada sobre o fim do isolamento social para combater o coronavírus, o que Mandetta e autoridades de saúde mundial não orientam. O ministro da Saúde ainda tem feito constante trabalho de manter sua equipe, de respeitados profissionais da área da saúde, para resistir as constantes ameaças do presidente e permanecer na missão.

Na verdade, o presidente Jair Bolsonaro está ficando em situação cada vez mais difícil: se demitir o ministro sofrerá violento desgaste político; se Mandetta ficar e tiver êxito em seu trabalho de combate ao vírus, sairá como ‘herói” e ainda ofuscará a figura do presidente. Que dureza!