Editorial

                    “Gripezinha” vai derrubar o presidente!

 

Um desastre! É isso o que se pode dizer do destrambelhado pronunciamento (desnecessário) do presidente Jair Bolsonaro na noite de terça-feira. E que foi ratificado ontem de manhã quando saia do Palácio da Alvorada. É estarrecedor ver um chefe da Nação ir na contramão das orientações da Organização Mundial da Saúde e de chefes de Estado dos países já afetados violentamente pela pandemia do coronavírus.

Não é possível que Jair Bolsonaro se ache um deus, inatingível e que possa colocar em risco uma população inteira que ele quer exposta ao vírus que vem provocando intensa tragédia mundo afora. Vide os tristes e lamentáveis exemplos da Itália, China e Espanha.

Como não poderia deixar de ser o lastimável pronunciamento em que o presidente voltou a se referir ao coronavírus como "gripezinha", dizendo que o isolamento é exagero e criticou os gestores que optaram por fechar escolas e culpou a imprensa pelo que chama de histeria, causou revolta nos meios políticos e médicos.

O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), afirmou que a fala indica que "estamos sem direção". "Desconectado da realidade, desconectado da ação do Ministério da Saúde, atrapalha o trabalho dos governadores e menospreza os efeitos da pandemia", afirmou.

"Os governadores precisam se reunir, estamos sem coordenação. O ministro e os governadores de um lado e o presidente menosprezando a pandemia de outro", lamentou o governador do Espírito Santo.

Há reações ainda mais severas que já falam até mesmo em impeachment do presidente Jair Bolsonaro, assessorado malucamente pelos três filhos desmiolados e que agem como incendiários do poder.

O presidente pediu a "volta à normalidade", o fim do "confinamento em massa" e disse que os meios de comunicação espalharam "pavor". Foi a gota d´água para despencarem críticas de todos os lados, principalmente dos presidentes do Legislativo.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), divulgou uma nota na qual classificou a fala de Bolsonaro como "grave" e disse que o país precisa de uma "liderança séria". O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), afirmou que o pronunciamento "foi equivocado ao atacar a imprensa, os governadores e especialistas em saúde pública". Agindo assim, o governo vai perder em breve o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que vem realizando um trabalho sério, impecável, com bom senso e responsabilidade. As atitudes alopradas de Bolsonaro atingem diretamente o ministro Mandetta, que certamente não suportará tanta ignorância e irresponsabilidade de um chefe de governo.

Jair Bolsonaro criticou o fechamento de escolas para combater a epidemia. A medida, no entanto, tem sido amplamente adotada mundo afora. Até ontem, 156 nações haviam fechado todas as suas escolas, segundo levantamento da Unesco. Na manhã desta quarta (25), a Rússia foi mais um país a determinar o fechamento de instituições de ensino devido à Covid-19. O órgão da ONU estima que 1,4 bilhão de alunos foram afetados pelas ações de resposta ao vírus, o que equivale a 82,5% dos estudantes de todo o planeta - cerca de 4 em cada 5.

Mesmo assim o presidente insiste em “dirigir” na contramão. Ele está preocupado com a economia, mas primeiro deveria se preocupar com a saúde da população e isso vai lhe custar muito caro, desabando popularidade e, principalmente, votos comprometendo seu sonho (ou pesadelo) da reeleição.