Livros sobre pragas e epidemias para ler e refletir durante a pandemia do coronavírus

Histórias de grandes desastres sempre serviram bem à literatura. Pragas e epidemias estão nesse rol de desastres que atraem o poder criativo de escritores ao redor do mundo.

Histórias de grandes desastres sempre serviram bem à literatura. Pragas e epidemias estão nesse rol de desastres que atraem o poder criativo de escritores ao redor do mundo.

Seja pura ficção, seja baseada em fatos reais, as histórias do mundo sucumbindo a uma epidemia costumam servir de pano de fundo para discutir ideias maiores, como a fragilidade do tecido social, a solidariedade entre indivíduos em tempos conturbados e a tentativa de resposta para uma velha pergunta: na hora da crise, o ser humano se mostra essencialmente bom ou essencialmente mau?

Em época de quarentena por conta da pandemia do coronavírus, uma boa maneira de usar o tempo dentro de casa é tirar o atraso das leituras.

Nesta e nas próximas edições, o Caderno 2 do Jornal da Manhã trará dicas de livros, dos já clássicos aos contemportâneos, que falam de epidemias e podem trazer algumas boas reflexões.

A dica desta quinta é Ensaio Sobre a Cegueira (1995) é um dos livros mais famosos do escritor português José Saramago (1922-2010), Prêmio Nobel da Literatura de 1998. O romance traz uma epidemia incomum: a doença deixa as pessoas cegas de repente, sem sintomas ou aviso prévio, no que chamam de "cegueira branca". Como uma sociedade pode se manter funcional quando vive sob um grande branco? O livro (Editora Companhia das Letras, 312 páginas) mostra como o governo trata com autoritarismo seus cidadãos e como, em pouco tempo, toda organização social entra em colapso, dando lugar a novas formas de leis e arranjos. O ponto alto da história é uma mulher que não fica cega, mas mesmo assim vai para a quarentena e não avisa ninguém de sua condição.

“Mantenham-se calmos!”

Em Ensaio Sobre a Cegueira, que ganhou as telas do cinema adaptado pelo brasileiro Fernando Meirelles a partir do romance homônimo de Saramago, aos poucos, os habitantes de uma cidade, um por um, vão perdendo a visão. Por medida de precaução, o governo decide confinar os infectados em um manicômio abandonado, onde são obrigados a reaprender a viver em sociedade. Nessa hora, o Nobel de Literatura de 1998 mostra do que as vítimas da “cegueira branca” são capazes para sobreviver em um território inóspito. “Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, façamos tudo, ao menos, para não viver inteiramente como animais”, escreve o autor português.

Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti. Cada leitor vive uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos".