Livros sobre pragas e epidemias para ler e refletir durante a pandemia do coronavírus

História da literatura sempre viu terreno fértil para relatos sobre epidemias - da pura ficção científica com aliens e zumbis aos acontecimentos reais

Histórias de grandes desastres sempre serviram bem à literatura. Pragas e epidemias estão nesse rol de desastres que atraem o poder criativo de escritores ao redor do mundo.

Seja pura ficção, seja baseada em fatos reais, as histórias do mundo sucumbindo a uma epidemia costumam servir de pano de fundo para discutir ideias maiores, como a fragilidade do tecido social, a solidariedade entre indivíduos em tempos conturbados e a tentativa de resposta para uma velha pergunta: na hora da crise, o ser humano se mostra essencialmente bom ou essencialmente mau?

Em época de quarentena por conta da pandemia do coronavírus, uma boa maneira de usar o tempo dentro de casa é tirar o atraso das leituras.

Nesta e nas próximas edições, o Caderno 2 do Jornal da Manhã trará dicas de livros, dos já clássicos aos contemportâneos, que falam de epidemias e podem trazer algumas boas reflexões, começando pelo romance "A Peste" (1947), considerado a obra-prima de Albert Camus, Prêmio Nobel de Literatura de 1957.

A história se passa em Oran, na Argélia, quando os trabalhadores locais começam a enfrentar a peste bubônica. Ela começa branda, mas logo domina suas vidas. O que vem a seguir é o que Camus, existencialista, quer tanto abordar: natureza e destino da condição humana, maldade e solidariedade, tudo como uma metáfora da Segunda Guera Mundial, que havia acabado há menos de dois anos e deixara um rastro de destruição pelo mundo.

O flagelo teve início quando, sem motivo aparente, milhares de ratazanas começam a fugir dos esgotos e a invadir as ruas. Logo, seus habitantes começam a cair doentes e, dali a poucos dias, a definhar até a morte.

Conotação política

Para evitar a disseminação da peste, as fronteiras foram fechadas. Quem estava fora não podia entrar e quem estava dentro era proibido de sair. Em carta enviada ao filósofo francês Roland Barthes (1915-1980), em 11 de janeiro de 1955, Camus admitiu que "A Peste" tinha forte conotação política. Publicado logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, era uma alegoria da ocupação alemã em Paris, onde o autor vivia na época, e representava, em suas palavras, “a luta da resistência europeia contra o nazismo”.

"A Peste" (Editora Record, 288 páginas) é uma obra de resistência em todos os sentidos da palavra. Narrado do ponto de vista de um médico envolvido nos esforços para conter a doença, o texto de Camus ressalta a solidariedade, a solidão, a morte e outros temas fundamentais para a compreensão dos dilemas do homem moderno.

Na era do Covid-19, a obra-prima de Camus voltou a ser procurada em sebos e livrarias do mundo inteiro e já está entre os cinco mais vendidos da Amazon no gênero “ficção literária”.

O autor - Albert Camus foi um escritor, filósofo, romancista, dramaturgo, jornalista e ensaísta francês nascido na Argélia, que também atuou como jornalista militante envolvido na Resistência Francesa, situando-se próximo às correntes libertárias durante as batalhas morais no período pós-guerra. Seu profícuo trabalho inclui peças de teatro, novelas, notícias, filmes, poemas e ensaios onde ele desenvolveu um humanismo baseado na consciência do absurdo da condição humana e na revolta como uma resposta a esse absurdo.