Cida Moreira é a diva que traz o funk para o cabaré sem copiar e anular Valesca Popozuda

Single com gravação de hit da funkeira é a primeira dose do álbum de Cida Moreira com a trilha sonora do programa "Um copo de veneno"

Somente o pré-conceito e a marginalização do funk podem explicar a fricção causada nas redes sociais com a notícia de que Cida Moreira voltaria ao disco em 2020 com gravação de música do repertório de Valesca Popozuda.

Houve quem, no tribunal do feibuque (assim ironizado por Tom Zé no titulo de música de 2013), atirasse Cida à fogueira por dar voz à música Eu sou a diva que você quer copiar sem sequer ouvir a gravação.

Enfim apresentada na última terça-feira (7), em single que oferece a primeira dose do álbum com a trilha sonora do ainda inédito programa de TV Um copo de veneno (Canal Brasil), a abordagem de Eu sou a diva que você quer copiar conserva Cida Moreira no devido lugar ocupado desde o alvorecer da década de 1980 por esta cantora paulistana, dama do cabaré que construiu uma das obras mais dignas da discografia brasileira.

Representante brasileira das saloon singers, Cida traz para o universo musical do cabaré a composição de André Vieira, Leandro Pardal e Wallace Vianna lançada em 2014 na voz de Popozuda em gravação produzida pelo DJ Batutinha. A rota é sinalizada logo na introdução da faixa pelo toque do piano, instrumento que sublinha a altivez do canto de Cida em diálogo travado em fina sintonia ao longo da faixa.

Cantora e pianista, Cida Moreira é diva o suficiente para cantar a música no próprio estilo - sem copiar e tampouco sem anular Popozuda – com maneirismos vocais ao fim da gravação de um minuto e 43 segundos.

Talvez por rigor estilístico, Cida tenha dado “escovada” na letra e, no single, omite estrofes que roçam certa vulgaridade, ficando somente com versos altivos que entoa com a rispidez das damas do cabaré que jogam verdades na cara dos ouvintes ao falarem o que pensam através da música.

De todo modo, A diva que você quer copiar cai bem na voz de Cida. Até porque Um copo de veneno é programa idealizado e dirigido por Murilo Alvesso com a verve teatral que sempre pautou o canto da intérprete.

Por mais evidente que fique a supremacia vocal da dama em relação ao canto menos formal da funkeira carioca, minimizar a gravação de Popozuda diante do registro de Cida seria contribuir para a marginalização do funk.

Da mesma forma, é justo reiterar que Cida jamais se torna cantora menor por estar gravando música massiva do repertório de Popozuda. Todas - cantoras e música - permanecem do mesmo tamanho.

(Mauro Ferreira - jornalista carioca que escreve sobre música desde 1987, com passagens no jornal O Globo e revista Bizz)