Uso de drones em guerras e no cotidiano desperta polêmica

Drone MQ-9 Reaper, atualmente o veículo aéreo não tripulado mais utilizado pelos Estados Unidos, transportou o míssil que causou a morte do general Qassem Soleimani

Um dos maiores líderes militares do Irã embarca em um carro no aeroporto de Bagdá e um míssil AGM-114 Hellfire. A morte do general Qassem Soleimani ganha as principais notícias do mundo e desperta o temor de um novo conflito no Oriente Médio. Nos bastidores um veículo aéreo não-tripulado, popularmente chamado de drone, cujo codinome é MQ-9 Reaper, ou ceifador em português.

O uso de plataformas autônomas em guerra se tornou uma realidade na última década, especialmente após a gestão do Presidente Barack Obama, que ampliou o uso de drones como arma de guerra silenciosa, mas letal.

As polêmicas permeiam os debates em torno do emprego de aeronaves não tripuladas, sobretudo militares. Segundo o Bureau of Investigative Journalism, sediado em Londres, apenas nas missões conduzidas pela CIA no Paquistão, desde 2004, os drones já mataram entre 2.600 e 3.400 pessoas. A estimativa, não confirmada, é que entre 475 a 891 vítimas sejam civis sem qualquer relação com os objetivos das missões.

Ataque a alvos civis não são exclusividade dos drones, já que desde a Primeira Guerra aeronaves erram alvos e matam civis.

Para os críticos, a falta de um piloto a bordo torna um drone uma ameaça ainda maior, mesmo que ele seja remotamente pilotado e tenha uma série de recursos que evitem erros.

A falta de informação nos projetos de veículos não tripulados, na maioria dos casos classificados como secretos, representa mais um aspecto controverso desse emergente segmento aeronáutico.

 Entre os projetos mais polêmicos está o X-37B. Concebido em 1999, o programa OVT (Orbital Test ­Vehicle) previa o desenvolvimento de um veículo espacial autônomo para demonstrar o potencial das tecnologias espaciais reutilizáveis.

O programa surgiu sob a tutela da Nasa, mas logo foi repassado a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency), a poderosa agência de pesquisa militar subordinada ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Atualmente classificado como secreto, o programa está em seu terceiro veículo, o OVT-3, que foi lançado do Cabo Canaveral, na Flórida, em 11 de dezembro de 2012. Oficialmente, o projeto objetiva validar uma série de sistemas em missão espacial de longa duração.

 A missão teve duração total de quase dois anos, quando foram analisados milhares de dados por telemetria.

O que desperta a desconfiança da comunidade científica é o fato de a tecnologia de veículo reutilizável ser amplamente conhecida pelos americanos.

O famoso Space Shuttle, a nave espacial reutilizável aposentada em 2011, começou a ser estudado ainda na década de 1960, em paralelo ao programa Apollo. Além disso, a classificação como secreto torna o programa X-37 ainda mais envolto em teorias conspiratórias.

Espião Espacial

Analistas temem que o X-37B possa ser uma plataforma para espionagem espacial ou mesmo uma plataforma militar espacial. Embora seja uma versão em miniatura do antigo ônibus espacial, o X-47B pesa cinco toneladas, tem 8,8 metros de comprimento e 4,5 metros de envergadura, além de contar com um pequeno compartimento de cargas.

Especialistas em guerra espacial afirmam que a nave pode ser utilizada para “bisbilhotar” satélites de outros países, ou mesmo retirá-los de órbita.

 O pequeno compartimento de cargas ainda permite que o veículo seja utilizado para “pescar” um satélite inimigo e transportá-lo em segurança para instalações militares norte-americanas, a fim de ser estudado.

As autoridades negaram que o projeto tenha qualquer utilidade militar e que não se trata de uma arma espacial, embora não detalhem o objetivo da missão. “Os parâmetros específicos não podem ser informados”, alega o capitão Chris Hoyler, do 30th Space Wing Commander.

Segundo o Pentágono, o X-37B é apenas uma plataforma de testes para espaçonaves reutilizáveis de segunda geração e, no futuro, poderá ser um pequeno laboratório científico autônomo, capaz de realizar diversos experimentos em microgravidade.

Serviços de inteligência

O mais polêmico emprego dos drones envolve os serviços de inteligência. Modelos disfarçados, com o Nano Hummingbird, da AeroVironment, é um pequeno robô voador camuflado de beija-flor.

O modelo é capaz de monitorar conversas e pequenas áreas sem chamar atenção. Outro modelo que se destaca por sua capacidade é o Black Hornet Nano, da Prox Dynamics, em uso no exército britânico.

Com configuração similar à de um helicóptero, o modelo tem apenas 10 × 2.5 cm e pesa insignificantes 16 g, incluindo a bateria.

 Com autonomia de até 20 minutos, o Black Hornet Nano transmite vídeo em tempo real, permitindo, assim, detectar ameaças numa zona de guerra.

Outros modelos, chamados de Bugbots Nano, são microdrones disfarçados de insetos. Alguns possuem câmera térmica (de infravermelho), vídeo de alta resolução e capacidade de carregar a bateria apenas por indução elétrica.

Privacidade e segurança

No mundo civil, os drones sofrem críticas devido ao potencial que possuem em invadir a privacidade sem serem descobertos. Pequenos drones equipados com câmeras de alta definição - que não custam US$ 1.000, somados - são uma ameaça real à privacidade, já que podem se camuflar facilmente no ambiente urbano ou rural e filmar irrestritamente o que o operador desejar.

Alguns modelos transmitem imagens em tempo real para smartphones e tablets, tornando ainda mais simples espionar a vida alheia. Algumas cidades nos Estados Unidos e na Europa estudam restringir o voo de drones a locais isolados e que não comprometa a privacidade.

Além da privacidade, muitos temem que a popularização desses pequenos robôs voadores se torne uma ameaça a segurança nas ruas. Mesmo pesando poucos quilos, o choque entre um drone e uma pessoa pode ser fatal. A regulamentação dos drones promete ser um dos capítulos mais conturbados no desenvolvimento desses pequenos e versáteis veículos.

No centro de comando

Os norte-americanos, assim como algumas nações da OTAN, possuem uma frota com diversos modelos de drones que são amplamente utilizados em missões de ataque.

O centro de controle, em geral, pode ser transportado para áreas estratégicas, como bases aéreas aliadas, permitindo seu emprego em escala global. O console de operações lembra muito o interior de aeronaves AWAC (Airborne Warning and Control System), incluindo a filosofia de uso C3 (comando, controle e comunicações).

Um operador (piloto) é responsável pelo voo e executa os comandos de modo similar aos realizados em uma aeronave convencional, considerando dados de altitude, velocidade, potência, parâmetros dos sistemas e assim por diante.

Drones destinados a missões de longa duração e grande alcance são operados em centros de controle de missão muito mais complexos.

 Dois desses centros de controle, instalados na sede da CIA, em Langley, Virgínia, são destinados a missões consideradas de alta prioridade e elevado grau de segurança nacional.

O conceito básico se assemelha ao modelo adotado pela NASA para controle de missões espaciais, possuindo uma complexa rede de comunicação, incluindo links via satélite e broadcast, assim como uma grande equipe destinada não apenas a voar o drone, mas, também, acompanhar e comandar em tempo real qualquer ação.