Huawei coloca Brasil em saia-justa com China e EUA

Empresa chinesa de telecomunicações, no centro da guerra comercial entre Washington e Pequim, quer participar de implantação das redes 5G no Brasil, o que coloca o país em posição delicada

Os executivos que comandam as operações no Brasil e na América Latina da empresa chinesa de telecomunicação Huawei (pronúncia: “uá-uei”) reuniram-se com o presidente Jair Bolsonaro (PSL) na semana passada.

 O encontro em Brasília buscou aproximar a companhia do governo brasileiro em um momento crítico para a Huawei.

A empresa está no centro da guerra comercial entre China e Estados Unidos e foi banida pelo governo americano de fazer negócios com companhias do país.

Os Estados Unidos alegam que a tecnologia da Huawei para redes de dados e a proximidade com o governo chinês representam uma ameaça à segurança nacional nas nações que a adotam.

A Huawei e a China negam as acusações. Mesmo assim, a empresa já sofreu reveses em outros mercados após as sanções dos Estados Unidos.

Com isso, torna-se ainda mais importante o leilão das redes móveis de quinta geração, ou 5G, no Brasil, previsto para 2020.

As redes 5G prometem velocidades de download até 20 vezes maiores do que no 4G, permitem que mais gente fique conectada em uma mesma região simultaneamente e oferece conectividade quase instantânea entre aparelhos.

A Huawei deixou claro para Bolsonaro que quer participar da implantação desta tecnologia no país.

"Não foi feita a proposta, ele (o presidente da Huawei no Brasil) apenas mostrou que quer 5G no Brasil", disse Bolsonaro a jornalistas após a reunião.

Isso coloca o governo brasileiro em uma posição delicada. Ao longo do ano, Bolsonaro buscou uma aproximação tanto com Pequim quanto com Washington, os principais parceiros comerciais do país.

Recentemente, a China disse que seus fundos estatais podem investir mais de R$ 100 bilhões no Brasil.

Ao mesmo tempo, o Brasil busca assegurar o apoio do governo americano para ser membro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e quer incrementar importantes acordos bilaterais com os EUA.

Os EUA já avisaram que deixarão de "compartilhar informações" com países que permitem o uso de tecnologia da Huawei em sistemas de comunicação.

É uma situação de "saia justa" para o governo brasileiro. Agradar um lado pode desagradar o outro - e colocar em risco acordos costurados com as duas maiores economias do mundo.

"O Brasil vem se mantendo extremamente neutro nesta guerra comercial. Não faz declarações a favor de um lado ou de outro", diz Hsieh Yuan, diretor de mercados e líder para China da consultoria de negócios Mazars.

Na sua avaliação, após Bolsonaro dizer na campanha presidencial que "a China não compra no Brasil, a China está comprando o Brasil", o presidente brasileiro assumiu uma "postura mais madura". "Querendo ou não, os maiores investimentos no país são chineses", diz Hsieh.

Em visita recente à China, Bolsonaro disse que a melhor oferta vencerá que o leilão das redes 5G. O presidente brasileiro reafirmou esta posição ao ser questionado quanto aos objetivos do encontro com a Huawei.

 "Fiquei sabendo que tem uma firma sul-coreana que também está em condições de operar 5G.

A gente vai olhar para o lado do quê? Oferta e conectividade", disse Bolsonaro.

A Huawei não participa diretamente do leilão, mas pode fornecer equipamentos para as operadoras que estarão na disputa.

Presente há 20 anos no país, a empresa já vende equipamentos para operadoras no Brasil e fez testes de redes 5G com Vivo, Oi, Tim e Claro, as quatro maiores companhias deste mercado.

A definição das especificações das tecnologias que serão usadas no Brasil pode ter um impacto direto sobre suas pretensões por aqui - e, de forma geral, em uma indústria na qual o investimento em redes 5G deve quase dobrar no próximo ano, para US$ 4,2 bilhões (R$ 17,7 bilhões), segundo a consultoria Gartner.