Em "Nada menos que tudo", Rodrigo Janot revela pouco mais do que nada

Livro reduz um período turbulento da nossa História a um jogo mesquinho de picuinhas de gabinete

 “Um ex-procurador geral é uma figura de respeito. Tudo que fala reverbera dentro da instituição”, escreve Rodrigo Janot já no primeiro capítulo de “Nada menos que tudo - Bastidores da operação que colocou o sistema político em xeque” (Editora Planeta, 256 pgs. R$ 54,90).

O fato de que ele próprio tenha ignorado completamente esse princípio, ao declarar à imprensa que entrou armado no STF com a intenção de assassinar o ministro Gilmar Mendes e se matar em seguida, é significativo: mostra como as palavras podem estar desconectadas dos fatos, e o pensamento das ações.

A perplexidade gerada pelas declarações de Janot teve e continua tendo desdobramentos imprevistos, inclusive o de ofuscar o conteúdo do livro, uma mistura insatisfatória de memórias pessoais e balanço de sua própria atuação à frente da Procuradoria Geral da República, ao longo de quatro anos turbulentos.

Se a intenção era promover o lançamento, o tiro saiu pela culatra.

Ainda que a narrativa seja fluente e de interesse para qualquer leitor interessado nos bastidores da história recentíssima do país, “Nada menos que tudo” acaba sendo bastante frustrante.

A expectativa gerada pelo título não se cumpre: a rigor, Janot entrega pouco mais do que nada em termos de novidades - ele basicamente acrescenta detalhes pouco relevantes ao que foi publicado no noticiário da época, acrescentando ao que já se sabia algumas cores: conversas de gabinete, anedotas sobre políticos ou outros procuradores, reflexões sobre o funcionamento das instituições.

É pouco crível que Janot não tivesse nada de mais substancioso a revelar que, por exemplo, os recorrentes episódios de investigados que choraram copiosamente em conversas privadas (qual o interesse disso?).

Capítulo após capítulo, o relato dos episódios segue um padrão: Janot está em seu Gabinete, e alguém aparece com algum pedido inadequado ou ilícito: ele reage dando um passa-fora no interlocutor e afirmando que fará o que tem que fazer.

 À força da repetição, essa reiteração da própria lisura e valentia à frente da PGR e na defesa intransigente do Estado de Direito confere ao texto um tom cabotino, mas não é só isso: causa estranheza que todos ou quase todos os personagens em cujos malfeitos o autor se detém com mais detalhe sejam ligados ao PMDB, ao PSDB ou a partidos menores, e pouquíssimos (com exceções como o ex-senador Delcídio Amaral) sejam ligados ao PT, o partido protagonista da operação Lava-Jato.

 De forma similar, os ex-presidentes Lula e Dilma são sempre citados de forma quase obsequiosa, como se pouco tivessem a ver com os acontecimentos do período, em contraste com as menções sempre agressivas ao ex-presidente Michel Temer.

 Em determinado momento, o autor chega a revelar sua admiração pelo ex-deputado José Genoíno (“...era uma espécie de ídolo para mim”) e comenta a dor que sentiu ao ter que pedir a execução da sua pena.

Essa parcialidade é preocupante, menos por revelar simpatias políticas inconvenientes ao cargo que por sugerir que esse sentimento pode ter influenciado manifestações da PGR, como o estranho entendimento de que a então presidente Dilma Rousseff não poderia ser responsabilizada, no segundo mandato, por atos cometidos em seu primeiro mandato, enfraquecendo assim o pedido de impeachment.

O próprio impeachment, aliás, recebe um tratamento esquisito do autor, que passa a impressão de acreditar que o afastamento da presidente foi resultado exclusivo da mágoa do deputado Eduardo Cunha com o PT: pouca ou nenhuma menção aos crimes de responsabilidade efetivamente cometidos, ao saque à Petrobras, às manifestações que levaram milhões de brasileiros às ruas, ao colapso da economia ou ao esfarelamento da base de apoio parlamentar – fatores, estes sim, determinantes do impeachment.

Também causa estranhamento a ligeireza com que Janot se desembaraça de um episódio que há poucas semanas voltou às manchetes: a atuação do procurador Marcelo Miller no escândalo das gravações de Joesley Batista, que quase derrubou o Governo Temer.

De forma similar, dado o estrago causado ao país por aquele episódio - a reforma da Previdência que deixou de ser aprovada, a recuperação econômica que foi interrompida, o desemprego que voltou a crescer, prejudicando milhões de brasileiros etc - e dado o que foi revelado posteriormente sobre o assunto, era de se esperar que o autor dedicasse um espaço maior a detalhar e fundamentar decisões tão graves tomadas à época - como a de conceder total imunidade penal a delatores que saquearam fortunas em dinheiro público e que por pouco não foram transformados em heróis.

“Nada menos que tudo” será certamente uma obra de referência para historiadores do futuro.

Por isso mesmo, é lamentável que a obra não reflita o contexto de urgência e de escândalo do período que relata, nem tampouco ofereça uma interpretação mais abrangente do grave processo político pelo qual o país passou. Há um momento, inclusive, em que o autor fala de forma debochada de políticos que se “fantasiaram” de verde e amarelo - justamente porque tudo se reduz, no livro, a uma história de gabinetes, ao varejo das picuinhas pessoais, ao jogo sujo de interesses de políticos corruptos.

Como se o Brasil não estivesse vivendo naquele período um movimento inédito, que mobilizou toda a sociedade e alterou o curso da História do país - movimento cujos desdobramentos estão longe de ter terminado. Tendo ocupado posição tão privilegiada como ator e testemunha desse processo, era de se esperar que as memórias de Rodrigo Janot fossem mais reveladoras e menos míopes.

(Luciano Trigo)