"Papa Francisco é uma das vozes mais lúcidas da atualidade", diz cineasta Fernando Meirelles

Durante produção de "Dois Papas", diretor descobriu em Bento XVI um intelectual de personalidade complexa

Em seu primeiro trabalho para a plataforma de streaming Netflix, o cineasta brasileiro Fernando Meirelles conta a história dos dois mais recentes papas do catolicismo - e da inusitada transição entre os dois papados, em 2013, após a renúncia de Bento XVI e a eleição do cardeal argentino Jorge Bergoglio, que adotou o nome Francisco.

O filme "Dois Papas", interpretados pelos atores Anthony Hopkins ("O Silêncio dos Inocentes") e Jonathan Pryce ("A Esposa" / "Game of Thrones"), foi exibido pela primeira vez no Festival de Cinema de Telluride, nos Estados Unidos. Em dezembro, o longa deve chegar às salas de cinema e, três dias antes do Natal, deve ser disponibilizado para assinantes da Netflix.

"Ao ver o roteiro pela primeira vez, li o Bento XVI como o vilão num filme sobre o papa Francisco. O filme se chamava "O Papa".

Depois de montado, (...) Bento XVI ganhou muitos tons de cinza: surgiu um personagem bem mais complexo e mais rico (...), e o filme passou a se chamar Os Dois Papas", afirmou Meirelles em conversa com a DW Brasil.

Sobre o papa Francisco, o cineasta disse que ele representa uma guinada na Igreja Católica.

 "A mensagem principal do papa Francisco é a misericórdia.

 E ele pede inclusão e tolerância, duas commodities cada vez mais em falta no mundo. Se ele não está mudando a Igreja tanto quanto eu imaginava, para a humanidade ele tem sido uma voz quase tão crucial quanto solitária".

"O papa é o líder de uma comunidade de 1,3 bilhão de pessoas, só o Xi Jinping o iguala, mas ele é o único desta dimensão que levanta a voz contra um sistema econômico baseado em crescimento e consumo, que sabemos estar nos destruindo.

Enquanto 100% dos líderes dos estados têm compromissos com seu crescimento econômico, ele é a voz do compromisso com todos os que ficam de fora desta equação, os que mais sofrerão as consequências da insanidade do sistema.

Ele não enxerga o mundo como a soma de muitas nações, mas como um espaço comum onde habita uma fraternidade e muitas outras espécies", afirmou Fernando Meirelles..