Secretário de Cultura deixa cargo após governo suspender edital com séries sobre temas LGBT

"Afronte" - que mostra a realidade vivida por negros homessexuais no Distrito Federal

O secretário especial de Cultura do Ministério da Cidadania - pasta a que a secretaria é subordinada desde a extinção do Ministério da Cultura, no início de 2019, Henrique Pires, deixou o cargo. Segundo ele, a decisão foi tomada porque ele vinha sendo uma "voz dissonante" no governo.

A assessoria do ministro da Cidadania, Osmar Terra, porém, disse que foi ele quem demitiu o secretário. Quem assumiu o cargo foi José Paulo Soares Martins, até então secretário-adjunto da Cultura.

Henrique Pires estava no cargo desde o início do governo Jair Bolsonaro e afirmou que decidiu deixar a secretaria após o ministério suspender um edital que havia selecionado séries sobre diversidade de gênero e sexualidade a serem exibidas nas TVs públicas.

"Para mim, isso tem nome: é censura. Se eu estiver nesse cargo e me calar, vou consentir com a censura. Não vou bater palma para este tipo de coisa.

Eu estou desempregado. Para ficar e bater palma pra censura, eu prefiro cair fora", afirmou Pires.

Na semana passada, ao fazer uma transmissão ao vivo em uma rede social, Bolsonaro disse que o governo não vai financiar produções com temas LGBT.

 "Fomos garimpar na Ancine, filmes que estavam já prontos para ser captado recursos no mercado. (...) É um dinheiro jogado fora. Não tem cabimento fazer um filme com esse tema", afirmou o presidente na ocasião

Ao informar a saída do cargo, o secretário especial de Cultura disse na última quarta-feira que não concorda com "filtros" na atividade cultural.

"Eu não concordo com a colocação de filtros em qualquer tipo de atividade cultural.

Não concordo como cidadão, e não concordo como agente público, você tem que respeitar a Constituição", afirmou Henrique Pires.

Críticas de Bolsonaro

Bolsonaro afirmou na última quinta-feira (15) que não irá permitir que a Agência Nacional do Cinema (Ancine) libere verba para produções com temas LGBT.

Na ocasião, o presidente citou quatro obras que participaram de um edital realizado pela Ancine, pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC). As produções seriam financiadas pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

"Afronte" - que mostra a realidade vivida por negros homessexuais no Distrito Federal, "Transversais" - que aborda os sonhos e realizações de cinco pessoas transgêneros que moram no Ceará, "Religare Queer" - que, segundo Bolsonaro "é sobre uma ex-freira lésbica.

Tem a ver com religiões tradicionalmente homofóbicas ou transfóbicas" e "O sexo reverso" - série baseada na pesquisa da antropóloga Bárbara Arisi, que visitou a tribo dos Matis, no Amazonas, são projetos de séries anunciados em março como parte de uma seleção preliminar do processo.