Bruno Gouveia desmonta roda-viva da indústria do disco ao narrar saga heroica do Biquini Cavadão

Contudo, o supra-sumo do livro é saga do Biquini Cavadão.

Mauro Ferreira (*)

A frase exposta ao alto na capa do recém-lançado livro de Bruno Gouveia, Uma autobiografia do cantor do Biquini Cavadão, é certeira ao associar o artista mineiro ao grupo carioca.

Mais do que a autobiografia de Bruno Gouveia, o livro É impossível esquecer o que vivi é a biografia do Biquini Cavadão.

O autor narra sobretudo a trajetória dessa banda de pop rock cujas origens remontam ao ano de 1983 em colégio do Rio de Janeiro (RJ), cidade onde Bruno vive desde a infância.

No início da narrativa, há capítulos dedicados à infância e adolescência do autor.

Assim como, no fim, há um capítulo de alto teor emocional dedicado ao acidente de helicóptero que matou o primeiro filho de Bruno, Gabriel (2008 - 2011), a dois meses do menino completar três anos.

Contudo, o supra-sumo do livro é saga do Biquini Cavadão.

Com numerosos trechos escritos na primeira pessoa do plural, a história da banda é contada sob a ótica do vocalista e compositor desse grupo integrado por Bruno Gouveia com Carlos Coelho (guitarra), Miguel Flores da Cunha (teclados) e Álvaro Birita (bateria).

Nessa opção e ênfase, reside a maior virtude e o grande defeito do livro.

A virtude é que, ao contar a história de uma banda que contabiliza 36 anos de vida, Bruno Gouveia desmonta a roda-viva da indústria pop - sobretudo a da indústria do disco - em relato sincero que descortina os bastidores da banda e das gravadoras.

Fica nítido como as companhias fonográficas manipulam as verbas promocionais (e os destinos, por consequência) dos artistas em nome de interesses meramente comerciais.

O abandono do álbum Escuta aqui (2000) pela diretoria da gravadora BMG, logo após a edição deste que é um dos discos mais coesos do Biquini Cavadão, é exemplar.

Bruno revela no livro que a razão do descaso foi o fato de o álbum que marcou a estreia da cantora Daniela Mercury na companhia naquele ano de 2000, Sol da liberdade (2000), ter estourado o orçamento e, diante das vendas abaixo do esperado, ter provocado a decisão da companhia de parar momentaneamente de investir em outros discos (incluindo o do Biquini) para poder honrar o compromisso financeiro com a matriz estrangeira da companhia.

Por incompatibilidade de gênios e/ou interesses artísticos com executivos da indústria fonográfica, o Biquini Cavadão entrou e saiu das maiores gravadoras desde os anos 1990. Foi rejeitado pela PolyGram após o sucesso do quarto álbum, Descivilização (1991), e amargou a decepção e o descaso da Sony Music com o álbum seguinte, Agora (1994).

Mas a banda de nome engraçadinho - assim batizada pelo padrinho artístico Herbert Vianna, sem acento em Biquini, como manda a gramática - sobreviveu e, por vias tortas, conquistou público numeroso e fiel, sobretudo em Belo Horizonte (MG) e em Fortaleza (CE), cidade eleita para abrigar em 2004 a gravação do primeiro DVD e CD ao vivo da banda, editados pela gravadora Deck numa das poucas experiências felizes do Biquini com a indústria fonográfica.

Sem a aparente preocupação de ostentar texto estiloso, Bruno Gouveia conta tudo isso no livro em tom quase coloquial, como se estivesse na mesa de um bar contando histórias com amigos.

O quase fica por conta da louvável preocupação de creditar cada música citada no livro, tanto as do Biquini Cavadão como as alheias.

Se a virtude de É impossível esquecer o que vivi é também o defeito do livro, é pelo fato de - tal como apresentada - a história soar interessante somente para seguidores fiéis da banda (e há muitos) e para quem lida de forma direta ou indireta com a indústria do disco. Porque o livro se resume basicamente ao relato das incertezas da banda, das gêneses dos repertórios de cada álbum e da trajetória dos discos em mercado nem sempre receptivo ao resistente Biquini Cavadão.

De todo modo, faltou revisão mais rigorosa para detectar erros como a data da publicação da primeira foto da banda na mídia (18 de dezembro de 1984, e não 1985, como creditado na página 64) e o ano do dueto de Léo Jaime e Paula Toller na música A fórmula do amor (Leoni e Léo Jaime), feito em 1985, e não em 1986, como crava Bruno na página 333 ao contextualizar o repertório escolhido pelo Biquini Cavadão para o DVD e CD ao vivo 80 vol. 2 (2008).

Tais detalhes tão pequenos jamais tiram o mérito do sincero jorro da memória de Bruno Gouveia. Parece haver honestidade em cada assunto abordado no livro, inclusive nos mais delicados, como a magoada saída do baixista André Sheik do Biquini Cavadão em novembro de 2000 por decisão da banda.

Sem quase nunca ser o queridinho da mídia, exceto nos primórdios de 1984 por conta do sucesso radiofônico de Tédio (Álvaro Birita, André Sheik, Bruno Gouveia e Miguel Flores da Cunha) antes mesmo da edição do primeiro disco da banda, o Biquini Cavadão vem construindo uma das histórias mais dignas e longevas do universo pop brasileiro.

Em narrativa franca, a autobiografia de Bruno Gouveia registra para a posteridade essa trajetória heroica no vaivém da gigante roda-viva do mercado e da própria vida.

(*) Mauro Ferreira é jornalista carioca que escreve sobre música desde 1987, com passagens pelo jornal O Globo e revista Bizz