Com homenagem a Euclides da Cunha, Festa Literária Internacional de Paraty quer promover debates pol

A 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) reúne 41 autores, músicos, atores e artistas até o próximo domingo, dia 14, em Paraty (RJ). Pela primeira vez, a festa literária tem mesas mais curtinhas, de 45 minutos, intercalando com as tradicionais de 1h15 e, também, uma competição de poesia falada com poetas internacionais, o Flip Slam.

 

A 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) reúne 41 autores, músicos, atores e artistas até o próximo domingo, dia 14, em Paraty (RJ). Pela primeira vez, a festa literária tem mesas mais curtinhas, de 45 minutos, intercalando com as tradicionais de 1h15 e, também, uma competição de poesia falada com poetas internacionais, o Flip Slam.

A 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) começou ontem com uma aula magna da crítica literária Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Euclides da Cunha (1866-1909) e Guimarães Rosa (1908-1967).

Walnice foi responsável pela edição crítica considerada definitiva de Os Sertões, clássico de Euclides da Cunha, autor homenageado desta edição do evento. Lançado originalmente em 1985 pela Brasiliense, o volume foi reeditado em 2016 pela UBU-Sesc.

Em 2009, a ensaísta publicou "Euclidiana: Ensaios sobre Euclides da Cunha" (Companhia das Letras), que rendeu o prêmio da Academia Brasileira de Letras. Sua obra de estreia - "No calor da obra", de 1973, que trata da Guerra de Canudos - vai ser relançada neste ano pela CePe.

Seguindo a tendência iniciada em 2016 de incluir mais convidadas na programação, a Flip deste ano tem maioria de mulheres: são 22, ou 53,6%. Ela também é, sobretudo, brasileira: São 22 convidados nacionais, 12 de países de língua não inglesa e 7 de países inglesa.

Com homenagem a Euclides da Cunha, a edição quer promover debates que o escritor levantou ao longo de seu trabalho e o tom político será forte durante os cinco dias de debates e apresentações.

Entre os destaques internacionais da 17ª edição do evento está Ayelet Gundar-Goshen, que é considerada uma revelação da literatura de Israel. Ayelet, que além de escritora é roteirista e psicóloga, autora de “Uma noite, Markovitch”, livro é inspirado em uma história real, fala de rapazes que vão da Palestina para a Europa, que estava sob domínio nazista, para participar de casamentos fictícios, arranjados, e assim resgatar mulheres judiais.

Outro destaque é a americana Kristen Roupenian, autora do conto "Cat person", que viralizou em 2017 com a história de um encontro ruim e gerou debates sobre consentimento em relações casuais. Kristen reuniu outros 11 contos que também discutem essas ideias de amor, desejo, poder e consentimento e publicou seu livro de estreia, uma coletânea que no Brasil chama "Cat person e outros contos". Com histórias leves e contemporâneas, ela é a representante millennial da Flip e tem tudo pra atrair um público jovem e arejado para o evento.

Entre as atrações brasileiras, o ensaísta José Miguel Wisnik terá uma mesa dedicada à atividade das mineradoras. Seu livro mais recente, “Maquinação do mundo: Drummond e a mineração” explora a relação entre a obra do poeta mineiro e a mineração e vai passar obviamente pelos últimos desastres ambientais envolvendo a atividade no estado de Drummond: as tragédias de Mariana e Brumadinho.

Adriana Calcanhotto também escreve e estará na feira. Seu livro de 2008, “Saga Lusa”, foi escrito depois de um surto psicótico causado pelo uso de remédios para gripe. A cantora e compositora é embaixadora e professora convidada da Universidade de Coimbra, em Portugal, e sua mesa no evento vai falar da mistura boa entre literatura, música e arquitetura.

José Celso Martinez Corrêa adaptou e dirigiu por quatro anos, no Teatro Oficina, um espetáculo baseado em "Os Sertões". Ele mesmo atuou na peça como Antônio Conselheiro e incorporou jovens e adolescentes do bairro do Bexiga no elenco. Na Flip, ele divide mesa com o porta-voz indígena Ailton Krenak para discutirem sobre valorização das diferentes culturas brasileiras.

 

Euclides da Cunha, o homenageado

O maior destaque é Euclides da Cunha, o grande homenageado da Flip 2019. Ele é autor do clássico Os Sertões. O livro foi lançado em 1902 e é uma obra de não ficção. Ele é resultado da cobertura do Euclides da famosa revolta de Canudos, que aconteceu no interior da Bahia no final do século 19. O escritor foi enviado ao local como repórter pelo jornal “O Estado de São Paulo”. Lá, ele registrou o conflito entre o exército brasileiro e o movimento liderado pelo Antônio Conselheiro.

Como acontece em todas as edições, o homenageado permeia diversos momentos da programação da Flip. Então, haverá, sim, muitas discussões sobre o Euclides da Cunha, e não só sobre o aspecto literário.

A curadora da Flip, Fernanda Diamant, quando anunciou o nome do Euclides da Cunha como homenageado, citou que Os Sertões, que ela chama de “um dos primeiros clássicos brasileiros de não ficção”, mistura jornalismo, geografia, filosofia, teorias sociais e científicas - muitas delas ultrapassadas, segundo a curadora - para falar de um país em transição.