"O país precisa de um presidente que pense em ioga, não em caratê" diz ex-assessor de Tancredo Nev

Antonio Britto e Clóvis Rossi lembraram histórias da redemocratização e falaram sobre "o político certo para o momento atual"

Estrelado por Othon Bastos e Emilio Dantas, o filme “O Paciente” estreia esta semana nos cinemas de todo o país. Dirigido por Sérgio Rezende, o longa narra os últimos dias de Tancredo Neves, primeiro presidente civil eleito após 21 anos de ditadura militar. O "Conversa com Bial" da última terça-feira (11), recebeu dois convidados que acompanharam de perto essa história: Antonio Britto, porta-voz do político responsável pela transição democrática, e o jornalista Clóvis Rossi. A dupla exaltou o talento para conciliação do mineiro e opinou sobre qual seria o político certo para o atual momento:

"Um novo Tancredo é impossível, mas o espírito conciliador dele seria o ideal. O país precisa cicatrizar feridas que foram exacerbando nos últimos anos", afirmou Clovis.

"Os melhores períodos da vida brasileira foram diferentes em tudo, menos em um aspecto: quando tiveram presidentes cordiais. Os nossos piores momentos como país foi com um pessoal bravo e genioso", analisou Antonio. "Esse país, pela sua complexidade e desestruturação de algumas instituições, precisa de um presidente que pense em ioga, não em caratê", disse o ex-porta voz de Tancredo.

Clovis ressaltou que o momento vivido com a eleição indireta de Tancredo, em 1985, é muito diferente do cenário de 2018: "Você tinha naquele momento um presidente querido, que fica doente, e um país esperançoso. O que você tem hoje? Um presidente saudável e um país ferido. Ainda que a eleição de Tancredo fosse indireta, teve uma baita festa. A eleição desse ano não tem festa". Ao ser questionado se teme um retrocesso no processo democrático, o jornalista lembrou que votou pela primeira vez na vida aos 46 anos: "Me senti roubado nos meus direitos político e civil. Não posso conceber que se possa voltar atrás e não ter direito a voto".

Antonio afirmou que a democracia é sempre o melhor caminho e lamentou que a sociedade esteja tão decepcionada com a política: "Há 30 anos, a esperança passava pela política. Não é a política que está errada, mas o que estão fazendo com ela.  Não há esperança para esse país, nem para nenhum outro, que não seja na democracia e na política. Naquele momento o ideal seriam eleições diretas. Mas como era uma transição, a emenda Dante de Oliveira foi derrotada. Não deu o ideal, fizeram o possível. Usaram o instrumento da ditadura - a eleição indireta - para derrotar o regime, elegendo alguém - Tancredo - que faria a ponte. Ele foi o atalho. Fez com que a democracria viesse antes e com menor custo".

"Tancredo fez política com o corpo. Ele não podia aparecer doente porque ainda não havia solidez na transição. Ele era a transição. Sem ele, os bolsões da resistência poderiam criar problemas", explicou Antonio. "O tempo todo, Tancredo tinha clareza que era essencial. Tentou jogar com o tempo e perdeu a corrida", lamentou o ex-porta-voz.