Empreendedor cria grupo que ajuda homens a expressar sentimentos

Por Izabel Dias Formado em administração de empresas pela USP, Gustavo Tanaka iniciou a carreira no mundo corporativo mas depois decidiu empreender seus próprios negócios. Ao longo de sua trajetória, percebeu que sentimentos, medos, e a forma como encaramos a vida são determinantes para obter prazer com o que fazemos. Com o livro “11 Dias de Despertar”, escrito em 2015, Gustavo Tanaka começou a

Por Izabel Dias

Formado em administração de empresas pela USP, Gustavo Tanaka iniciou a carreira no mundo corporativo mas depois decidiu empreender seus próprios negócios. Ao longo de sua trajetória, percebeu que sentimentos, medos, e a forma como encaramos a vida são determinantes para obter prazer com o que fazemos.
Com o livro “11 Dias de Despertar”, escrito em 2015, Gustavo Tanaka começou a desenvolver suas ideias e conduzir trabalhos sobre autoconhecimento. Percebeu que em geral os homens não se interessam pelo autoconhecimento e com isso acabam não encontrando o real propósito na vida profissional e pessoal. Criou então o grupo ‘Brotherhood’, onde homens se reúnem para falar de seus sentimentos e dificuldades do dia a dia. O grupo atua em São Paulo, mas Tanaka pretende levá-lo também a outras cidades. O escritor mantém um blog na Internet onde escreve sobre diferentes assuntos e seus artigos e vídeos no Facebook são vistos por milhares de pessoas. Em entrevista por email ao Jornal da Manhã, Gustavo Tanaka falou sobre a importância de darmos atenção aos sentimentos.

JM - Qual sua formação e porque decidiu falar sobre sentimentos masculinos? Como surgiu o livro “11 dias de Despertar ” ?
Gustavo: “Eu estudei administração de empresas na USP. Comecei a minha trajetória profissional no mundo corporativo e depois de alguns anos, decidi empreender meus próprios negócios. O livro ‘11 Dias de Despertar’ foi escrito em 2015, em um momento de crise pessoal, crise financeira, onde me sentia perdido, sem saber porque minha vida estava travada. Foi um movimento de expressão, onde resolvi olhar para alguns medos que eu tinha e tentar ter as respostas que eu buscava. Vi que tudo estava dentro de mim e eu tinha as respostas a todas as minhas perguntas. O livro é uma conversa que tive comigo mesmo. Desde então venho escrevendo as minhas ideias e conduzindo trabalhos de autoconhecimento.

JM: Porque decidiu fazer um trabalho voltado para os homens?
Gustavo: “Nesse mundo do autoconhecimento, pude perceber que a esmagadora maioria era de mulheres. E foi assim que decidi que seria importante fazer um trabalho com homens também.”

JM - A partir de suas experiências, a que você atribui a dificuldade dos homens em falar de seus sentimentos?
Gustavo: “Os homens não aprendem a lidar com as emoções. Aprendem que homem não pode chorar. Então, se o homem começar a dar muita atenção para seus sentimentos e olhar para dentro, pode ter vontade de chorar. Mas se homem não pode chorar, como faz? Então eles não olham, evitam lidar com o que acontece dentro e reprimem todas as emoções.

JM: O ambiente masculino impede que eles expressem sentimentos?
Gustavo: “O ambiente masculino é muito hostil. Nos grupos de homens, estão sempre um tirando sarro do outro. Não existe espaço para vulnerabilidade ou acolhimento. Se ele falar algo que mostre fraqueza, ele vai ser sacaneado pelo grupo. E com isso todos se fecham.”

JM:  O grupo ‘Brotherhood’ foi criado há quanto tempo e como funciona? O grupo se baseia em alguma linha de pensamentos (psicologia, terapia holística, filosofia, etc)?
Gustavo: “No começo desse ano comecei a promover encontros em São Paulo com homens em busca de autoconhecimento. Fazemos encontros quinzenais e falamos sobre aquilo que está vivo em nós no momento. Falamos sobre relacionamentos, relação com os pais, sexualidade, preconceitos e vamos compartilhando nossas dificuldades e desafios para nos tornarmos seres humanos melhores.
Nesses encontros, alguns homens se interessavam demais pelo assunto e se transformavam tanto que tinham vontade de levar para mais gente. Foi aí que surgiu a ideia de criar o Brotherhood. Um movimento de homens para homens. Organizamos eventos de autoconhecimento para homens e produzimos conteúdos para entendermos melhor o que de fato é ser homem e qual é o nosso potencial como seres humanos. Não seguimos nenhuma linha de pensamentos ou filosofia. Apenas um desejo grande de transformação individual e uma vontade de compartilhar tudo o que aprendemos.”

JM: “Como os homens se interessam em participar? São convidados ou se apresentam? Os grupos funcionam em outra cidade além de São Paulo?
Gustavo: “Estamos somente em São Paulo. Mas recebemos tantas mensagens de gente de outras cidades que estamos estruturando formas de interagir com esse pessoal. Criamos uma comunidade no Facebook chamada Comunidade Brotherhood e estamos dialogando com homens de outras cidades para apoiá-los na criação de seus próprios grupos”.
JM - Observamos que muitos relacionamentos (casamentos principalmente) se acabam pela dificuldade de diálogo entre homens e mulheres. Você acredita que a dificuldade dos homens verbalizarem sentimentos também prejudica os relacionamentos a dois, já que as mulheres têm mais facilidade de falar?
Gustavo: “Com certeza. O homem é um ser que não fala muito. E a mulher tem dificuldade de compreender o que se passa no universo interno dele. Ele vai guardando tudo dentro dele. E tudo que ele guarda traz um peso muito grande. Aquilo que não é falado acaba se transformando em ressentimento, vergonha, culpa. E muitas vezes chega um momento em que ele não aguenta mais guardar e explode. E não raramente acaba agindo com violência ou agressividade. Na verdade é a dificuldade de lidar com ele mesmo”.
JM- A forma como os homens foram criados é determinante para dificuldade de expressar sentimentos?
Gustavo: “Eu acredito que o homem não tem muito espaço para ser ele mesmo. Existe uma pressão social desde cedo. Desde criança o homem é treinado para ser competitivo, para ser o mais forte, se preparar para ser o provedor e nunca falhar”.

JM: Como tentar modificar isso em adultos com costumes tão arraigados na cultura brasileira?

Gustavo: “Para mim, a chave é abrirmos espaço para conversar sobre esses assuntos com acolhimento. Para um homem ver que ele não é o único que sofre e que todos têm as mesmas preocupações e dificuldades. Além disso, acho importante começarmos a criar novas referências masculinas. Podermos ver que existem homens que não se encaixam no estereótipo tradicional do machão e que são figuras que podemos admirar.
Esse é o trabalho que começamos a desenvolver com a série ‘Homens de Verdade’. Queremos mostrar homens por trás das máscaras, que atuam em profissões que não são tidas como masculinas ou que de alguma maneira conseguiram vencer o medo do julgamento para serem quem são de verdade”.